Por Fernando Gomes
Quando o Campeonato do Mundo de Futebol está a decorrer, com toda a sua força mediática, emoção popular e capacidade de mobilização global, importa recordar que o futebol nunca é indiferente ao mundo que o rodeia. O entusiasmo legítimo pelo jogo não pode fazer esquecer que os grandes eventos desportivos devem respeitar os Direitos Humanos, os direitos dos trabalhadores e o Direito Internacional.
A organização do Campeonato do Mundo de Futebol de 2030 por Portugal, Espanha e Marrocos deve ser motivo de exigência democrática, e não de silêncio cúmplice. Um evento com esta dimensão projecta países, mobiliza recursos públicos, envolve empresas, trabalhadores e milhões de adeptos. Por isso, não pode ser separado do respeito pelos Direitos Humanos, pelo Direito Internacional e pelas resoluções das Nações Unidas.
A candidatura conjunta coloca uma questão incontornável: o Sahara Ocidental continua a ser um território não autónomo, ocupado por Marrocos desde 1975, como aconteceu em Timor, nesse mesmo ano ocupado pela Indonésia. O povo saharaui tem direito à autodeterminação, tal como reconhecem as Nações Unidas. A ocupação marroquina não pode ser normalizada através do desporto, nem a realização do Mundial pode servir para legitimar mapas, investimentos ou narrativas que apaguem o povo saharaui e o seu direito inalienável de decidir livremente o seu futuro.
A solidariedade internacional entre trabalhadores e povos não é uma palavra vazia. É um princípio. O futebol deve aproximar povos, não branquear injustiças. Portugal, país com uma história marcada pelo 25 de Abril e pela defesa da liberdade, tem responsabilidades acrescidas: não devia pactuar com um processo que ignore a legalidade internacional, nem aceitar que interesses económicos e mediáticos se sobreponham aos direitos de um povo.
Defender um Mundial respeitador dos Direitos Humanos significa exigir transparência, respeito pelos trabalhadores envolvidos nas obras e serviços, garantias sociais, liberdade sindical e compromisso claro com as resoluções da ONU sobre o Sahara Ocidental. Significa também recusar que qualquer infraestrutura, promoção ou representação territorial associada ao Mundial seja usada para consolidar a ocupação.
O desporto deve estar ao serviço da paz, da cooperação e da fraternidade entre os povos. Mas não há verdadeira paz sem justiça. E não há justiça quando se silencia o direito à autodeterminação do povo saharaui.
Acção Socialista:
