27 março 2026

O Governo está a matar a concertação social (Expresso Online de 26.03.2026)

A concertação social é um dos pilares fundamentais do regime democrático consagrado na Constituição da República Portuguesa. Não é um mero mecanismo consultivo ou decorativo: é um espaço institucional de diálogo, negociação e compromisso entre o Governo e os parceiros sociais, onde se devem construir, na área laboral, políticas públicas para o desenvolvimento económico e social do país.

O que hoje assistimos, com o afastamento da CGTP-IN das negociações sobre o pacote laboral, é um sinal preocupante de degradação desse modelo. Mais do que um conflito conjuntural, trata-se de um problema estrutural que levanta sérias dúvidas sobre o respeito do Governo pelo quadro constitucional e legal da concertação social.

A concertação social não é facultativa, é constitucional

O artigo 92.º da Constituição da República Portuguesa estabelece claramente a existência do Conselho Económico e Social (CES) como órgão de consulta e concertação no domínio das políticas económicas e sociais. A Comissão Permanente de Concertação Social (CPCS), que funciona junto do CES, é o espaço próprio para a negociação entre Governo, confederações sindicais e patronais.

A Lei n.º 108/91, que regula o CES, concretiza este mandato constitucional, atribuindo à CPCS competências claras no domínio do diálogo social, designadamente na discussão de políticas laborais, salários, condições de trabalho e legislação do trabalho.

Ou seja, a concertação social não é uma opção política do Governo do momento, é uma obrigação constitucional e legal. Ignorá-la, esvaziá-la ou instrumentalizá-la é, na prática, fragilizar a própria democracia.

Um Governo que simula diálogo, mas impõe decisões

O que está em causa não é apenas o afastamento da CGTP-IN, mas a forma como o Governo conduz o processo: apresenta propostas fechadas, limita o espaço negocial e, na prática, transforma a concertação social num ritual formal sem conteúdo.

Este comportamento contraria frontalmente o espírito e a letra da Constituição e da Lei. A concertação social exige negociação de boa-fé, abertura ao compromisso e respeito pelos parceiros sociais, independentemente das suas posições de partida.

Ao marginalizar a CGTP-IN, a maior e mais representativa Confederação sindical do país, que representa centenas de milhares de trabalhadores, o Governo não está apenas a excluir um interlocutor, está a deslegitimar o próprio processo de concertação.

Enfraquecer os sindicatos é enfraquecer a democracia

O ataque à concertação social não pode ser dissociado do conteúdo do pacote laboral. As propostas em discussão apontam, em muitos casos, para uma regressão de direitos, desvalorização da contratação colectiva e maior desequilíbrio nas relações laborais.

Como tem sido afirmado pela Corrente Sindical Socialista da CGTP-IN, o trabalho digno assenta em pilares inseparáveis: direitos no trabalho, emprego de qualidade, protecção social e diálogo social.

Quando se enfraquece o diálogo social, está-se a minar um desses pilares fundamentais. E quando se enfraquecem os sindicatos, abre-se caminho a uma maior precariedade, desigualdade e insegurança.

A morte lenta da concertação social

O que está em curso não é um episódio isolado, é um processo de erosão. Primeiro esvazia-se o conteúdo das negociações, depois desvaloriza-se o papel dos parceiros sociais e, por fim, transforma-se a concertação social numa formalidade irrelevante.

Este caminho conduz a uma conclusão clara: o Governo está a matar a concertação social.

E fá-lo não apenas por omissão, mas por opção política, ao privilegiar decisões unilaterais, ao reduzir o espaço de negociação e ao ignorar o pluralismo que caracteriza o movimento sindical português.

Defender a concertação social é defender a democracia

Perante este cenário, torna-se urgente reafirmar princípios fundamentais:

  • A concertação social deve ser respeitada como espaço real de negociação;
  • Todos os parceiros sociais devem ser envolvidos de forma efectiva;
  • O Governo deve agir de boa-fé e com abertura ao compromisso;
  • O diálogo social não pode ser substituído por imposições políticas.

A história do movimento sindical português demonstra que os maiores avanços sociais foram alcançados através da negociação colectiva e do diálogo social, nunca pela imposição.

Defender a concertação social é, por isso, defender a democracia, o Estado Social e os direitos dos trabalhadores.

Se o Governo persistir neste caminho, não estará apenas a romper com a CGTP-IN e os seus sindicatos, estará a romper com um dos pilares essenciais do regime democrático construído após o 25 de Abril.

Fui membro (suplente e efectivo) do Plenário do Conselho Económico e Social (CES) entre 01 de Outubro de 2004 e 19 Abril de 2024 e efectivo da sua Comissão Permanente de Concertação Social (CPCS) de 21 de Fevereiro de 2020 até 19 Abril de 2024.

Expresso Online:

https://expresso.pt/opiniao/2026-03-26-o-governo-esta-a-matar-a-concertacao-social-22ad6ce5

30 outubro 2025

Mulheres Socialistas e Juventude Socialista: novos desafios, os mesmos compromissos (Ação Socialista n.º 1813 de 30.10.2025)

A propósito das reuniões que, nos últimos dias, a Corrente Sindical Socialista da CGTP-IN realizou com as Mulheres Socialistas e a Juventude Socialista, entendemos que se colocam a estas duas organizações desafios simultaneamente políticos, sociais e civilizacionais.

Desafios que exigem uma resposta firme, coerente e articulada, à altura dos valores que inspiram o socialismo democrático e que as Mulheres Socialistas e a Juventude Socialista têm presente há muitos anos: igualdade, liberdade, solidariedade e justiça social.

1. As mulheres na linha da frente da igualdade e da democracia
A luta das mulheres trabalhadoras tem sido um dos pilares da transformação social em Portugal.

A sua participação nas empresas, nos sindicatos, na política e nas instituições públicas contribuiu decisivamente para o progresso do país desde o 25 de Abril.

No entanto, persistem desigualdades: salariais, profissionais e, sobretudo, estruturais.

O novo contexto laboral, com a intensificação da precariedade e a dificuldade em conciliar a vida profissional e familiar, volta a colocar as mulheres sob enorme pressão. São elas as primeiras vítimas de horários desregulados, de vínculos precários e da insuficiência de apoios à maternidade e à infância.

É por isso que as Mulheres Socialistas – Igualdade e Direitos, lideradas por Elza Pais, assumem, em nosso entender, um papel decisivo.

A sua intervenção continuará certamente a exigir a plena aplicação da Agenda do Trabalho Digno, a combater os retrocessos que o Governo da AD (PSD/CDS) quer impor e a reforçar a participação das mulheres nos sindicatos, nas empresas e nos órgãos de decisão.

O desafio que lançamos é claro: integrar os sindicatos, reforçar o sindicalismo que reivindica salário igual para trabalho igual, horários compatíveis com a vida familiar e políticas públicas que libertem as mulheres das desigualdades que ainda as aprisionam.

2. A Juventude Socialista perante a precariedade
A Juventude Socialista, dirigida por Sofia Pereira, enfrenta talvez a missão mais difícil da sua história recente: mobilizar uma geração que trabalha mais, ganha menos e vive com menos segurança e esperança do que os seus pais.

O pacote laboral “Trabalho XXI”, apoiado pela direita e pela extrema-direita, é uma verdadeira ameaça para os jovens: legaliza novas formas de precariedade, fragiliza a contratação colectiva e reduz o poder dos sindicatos.

A resposta tem de vir também da juventude.

É essencial que os jovens socialistas que entram no mercado de trabalho se sindicalizem, participem nos sindicatos e assumam funções de direcção, tornando-se a nova geração de delegados e dirigentes sindicais, no nosso caso, no seio do movimento sindical associado à CGTP-IN.

O futuro do sindicalismo e da democracia também depende da sua participação.

O combate à precariedade e à exploração passa por transformar a indignação em acção, por fazer da intervenção sindical um espaço de esperança, coragem e mobilização.

3. Alianças para um novo ciclo de progresso social
As recentes reuniões entre a Corrente Sindical Socialista da CGTP-IN, as Mulheres Socialistas e a Juventude Socialista mostraram que há terreno fértil para a cooperação.

Há um combate comum: o da defesa do Estado Social, da habitação, do ambiente, do trabalho digno, da igualdade e da paz.

E há um propósito comum: garantir que os valores de Abril continuam a orientar o futuro, resistindo ao avanço do individualismo, da extrema-direita e da indiferença social.

A acção convergente entre as mulheres socialistas, a juventude socialista e os sindicalistas socialistas é mais do que uma necessidade conjuntural — é uma exigência de coerência histórica.

A nossa luta é pela igualdade que emancipa, pela solidariedade que une e pela esperança que transforma.

É este o caminho que devemos percorrer juntos — no trabalho, nos sindicatos e na sociedade.

Ação Socialista:

https://www.accaosocialista.pt/?edicao=1813#/1813/mulheres-socialistas-e-juventude-socialista-novos-desafios-os-mesmos-compromissos

19 setembro 2025

Construir alianças sociais, sindicais e políticas para derrotar o pacote laboral (Ação Socialista n.º 1783 de 18.09.2025)

A legislação laboral que o Governo da AD, com o apoio do CHEGA e da Iniciativa Liberal, procura impor ao país representa o maior retrocesso social e laboral das últimas décadas. É um verdadeiro ataque à classe trabalhadora e aos sindicatos. Está em causa não apenas o agravamento da precariedade, a limitação da contratação colectiva e o enfraquecimento dos sindicatos, mas também um ataque directo à dignidade de quem trabalha, à protecção e coesão social.

Perante esta ofensiva, a resistência isolada já não é suficiente. É urgente construir convergências sindicais, sociais e políticas, firmes e consequentes, capazes de articular vontades, multiplicar forças e transformar a indignação em acção e luta.

Alianças sindicais: A CGTP-IN, a UGT e os sindicatos independentes têm histórias, culturas e práticas diversas. Mas o que hoje nos divide é incomparavelmente menor do que o que nos une: a defesa do trabalho digno, de salários justos, da contratação colectiva e da democracia nos locais de trabalho. Se a ofensiva patronal e governamental é comum, também a resistência deve ser comum. É possível – e necessário – encontrar plataformas de entendimento que permitam acção e luta em conjunto, nas empresas, nas ruas e no debate público.

Alianças sociais: O movimento sindical deve procurar ultrapassar desconfianças e estabelecer pontes com organizações representativas de interesses específicos: jovens, mulheres, imigrantes, reformados e pensionistas, precários e desempregados. Estes são precisamente os grupos mais atingidos pela agenda governamental, condenados a um futuro de insegurança e exploração. Não basta falar em nome deles: é fundamental mobilizá-los de forma inclusiva e participada.

A promoção da precariedade que o Governo AD com o apoio do CHEGA e Iniciativa Liberal se preparam para nos impor levará os jovens trabalhadores a terem uma vida adiada: sem casa toda a vida, sem emprego seguro que os levará a constituir família muito tarde. As consequências para o país serão desastrosas, com o agravamento da já baixa natalidade.

Alianças políticas: Também no plano político é essencial uma frente clara de rejeição do pacote laboral. PS, PCP, BE, Livre e PAN têm responsabilidades acrescidas: perante um projecto que destrói direitos conquistados ao longo de décadas, não pode haver hesitação. A convergência política não apaga diferenças programáticas, mas permite criar uma base sólida em defesa do Estado Social — saúde, educação, segurança social, habitação — e dos valores consagrados na Constituição da República Portuguesa.

Este conjunto de convergências, que temos defendido desde sempre nos órgãos dirigentes da CGTP-IN, já fazia sentido no passado, mas assume hoje uma urgência decisiva, numa conjuntura em que a direita e a extrema-direita detêm no Parlamento uma maioria de dois terços. Só alianças que envolvam sindicatos, sociedade civil e partidos das esquerdas poderão travar o retrocesso e abrir caminho a uma agenda de progresso e dignidade.

A história mostra-nos que as grandes conquistas laborais em Portugal resultaram sempre da luta, mas também da unidade: foi assim no derrube do fascismo, na conquista da contratação colectiva, na criação do salário mínimo, do Serviço Nacional de Saúde e na instituição do sistema público de segurança social. Hoje, mais do que nunca, precisamos de recuperar essa memória de unidade para enfrentar uma ofensiva que põe os interesses dos grandes grupos económicos acima das necessidades dos trabalhadores e do povo em geral.

Se cada sindicato resistir isolado, se cada associação actuar por conta própria, se cada partido agir apenas na sua lógica, o pacote laboral passará. Mas se soubermos construir alianças sindicais, sociais e políticas, será possível travar este retrocesso e reforçar a luta pela construção de uma sociedade mais justa e solidária.

É nesta linha de intervenção e acção que se posicionam os sindicalistas da Corrente Sindical Socialista da CGTP-IN, convictos de que a procura de pontos comuns fortalece a luta e multiplica as possibilidades de vitória da classe trabalhadora.

É por isso que enquanto membro do Secretariado e Conselho Nacional da CGTP-IN apelo à participação na jornada de luta da CGTP-IN, no próximo sábado, 20 de Setembro de 2025, no Porto (10:30 h) e em Lisboa (15:00 h).

Vamos derrotar a proposta do Governo. A luta continua!

Ação Socialista:

10 julho 2025

Partido Socialista: um novo ciclo rumo a um futuro melhor (Ação Socialista n.º 1754 de 10.07.2025)

José Luís Carneiro, novo Secretário-Geral do Partido Socialista (PS), recebeu ontem uma delegação da Tendência Sindical do Partido Socialista (TSS do PS) para estabelecer formas de acção comum entre o Partido e os Sindicalistas Socialistas, respeitando a autonomia mútua.

A TSS do PS é constituída pela Corrente Sindical Socialista (CSS) da CGTP-IN e pela Tendência Sindical Socialista (TSS) da UGT.

Nesta reunião, a CSS da CGTP-IN, expressou algumas das suas posições, enquanto sindicalistas socialistas e independentes da CGTP-IN, desde logo, a oposição clara e inequívoca a qualquer alteração à lei da greve que o Governo da AD (PSD/CDS) se prepara para fazer. Os trabalhadores não aceitam que a sua mais importante forma de luta, seja contra a violação dos direitos, seja pela melhoria de salários e condições de trabalho, possa ser limitada ou condicionada. A actual legislação já prevê a existência de serviços mínimos para salvaguardar o equilíbrio entre o livre exercício do direito à greve e o funcionamento essencial para as actividades de carácter eminentemente social.

De igual forma, qualquer alteração ao Código do Trabalho e à legislação da Agenda do Trabalho Digno, merecerá o nosso repúdio e oposição, pois a CSS não aceita que a legislação do trabalho tenha retrocessos que só deixarão os trabalhadores e as trabalhadoras mais desprotegidos/as.

A acção sindical dos sindicalistas socialistas e independentes da CGTP-IN continuará a ser direccionada para a defesa do Estado Social, nomeadamente, a Segurança Social pública e universal, o Serviço Nacional de Saúde (SNS), e para a Escola Pública e lutarão, pelo reforço dos serviços públicos. O reforço do investimento na habitação é também um eixo fundamental das políticas públicas, que a CSS continuará a defender, pois a falta de habitação a custos controlados ou com renda acessível afecta largas dezenas de milhares de cidadãos, a maioria, de trabalhadores e jovens.

Sobre a imigração, a CSS da CGTP-IN continua a defender que o Partido Socialista se deve orgulhar das políticas humanistas que sempre teve em relação aos imigrantes que escolhem Portugal para trabalhar e viver, expressando contudo, que, na sua análise, a extinção do SEF foi um erro, e reafirmou a necessidade de existir uma acção inspectiva em todos os locais de trabalho que combata a exploração laboral e a prática de salários e direitos que estejam aquém da contratação colectiva aplicável e da lei.

A CSS terminou reafirmando a reivindicação do aumento das pensões, a valorização do salário mínimo nacional e a diminuição do horário de trabalho para as 35 horas semanais, até ao fim da legislatura.

A CSS considera que esta primeira reunião que se realizou com o Secretário-Geral do PS, José Luis Carneiro, a quem desejámos votos de um excelente trabalho nas novas funções para as quais foi eleito, demonstra que iniciámos um novo ciclo onde todos trabalharemos para merecer a confiança dos trabalhadores e do Povo e para continuarmos no rumo de construir um futuro melhor para Portugal.

Fotografia de José António Rodrigues

Ação Socialista:
https://www.accaosocialista.pt/?edicao=1754#/1754/partido-socialista-um-novo-ciclo-rumo-a-um-futuro-melhor

30 maio 2025

O Sindicalismo como espaço de resistência (Ação Socialista n.º 1727 de 29.05.2025)

A actividade sindical é por natureza o espaço de reivindicação, acção e luta, por melhores condições de trabalho, direitos e salários. No actual contexto social e político, o sindicalismo ganha preponderância, tanto na resistência ao ataque aos direitos e ao Estado Social, como na identificação e resolução dos problemas concretos dos trabalhadores e trabalhadoras.

Os resultados eleitorais de 18 de Maio de 2025 foram desastrosos para o Partido Socialista e os restantes Partidos das Esquerdas. Muitas são as razões que a seu tempo discutiremos nos órgãos dirigentes do PS e a que voltaremos neste espaço da Tendência Sindical Socialista (CSS da CGTP-IN e TSS da UGT).

O reforço dos Sindicatos:
Ao longo dos anos, os sindicalistas socialistas da CGTP-IN têm defendido que o PS deveria incentivar os seus militantes e simpatizantes trabalhadores a sindicalizarem-se, seja nos sindicatos da CGTP-IN seja nos da UGT, e a intervir na sua acção; que se assumam disponíveis para serem delegados e dirigentes sindicais, no sentido de influenciar as reivindicações e a luta por melhores condições de trabalho, pela melhoria dos direitos e pelo aumento dos salários. E, naturalmente, que estejam disponíveis para assumir responsabilidades de direcção na própria estrutura sindical.

A vida das pessoas, trabalhadores e trabalhadoras, é significativamente melhorada através da actividade sindical, do reforço dos Sindicatos, para o desempenho da acção que lhes está destinada.

A negociação de um acordo de empresa ou de um contrato colectivo de trabalho para um determinado sector, contribui significativamente para a melhoria das condições de vida de milhares de cidadãos, conseguindo ganhos, direitos e salários para a classe trabalhadora.

É neste contexto e com este objectivo que lançamos o apelo aos trabalhadores e trabalhadoras simpatizantes ou militantes do Partido Socialista para que se filiem nos sindicatos dos seus sectores de actividade, que participem na sua vida e que se candidatem a delegados e dirigentes sindicais.

Desafios de futuro:
A importância do reforço dos Sindicatos torna-se mais premente em função das agendas políticas que a direita e a extrema-direita estão a pôr em discussão. Pelas alterações à Constituição da República Portuguesa (CRP) preparam-se para enfraquecer os direitos dos trabalhadores, desde a protecção no despedimento ao direito à greve.

Outro ataque a que precisamos de resistir é ao Estado Social. O movimento sindical precisa estar preparado para combater todo e qualquer ataque ao Serviço Nacional de Saúde (SNS), à Segurança Social, pública e universal, à Educação, à Habitação e também à Cultura.

Alianças sociais, sindicais e políticas:
É neste contexto que o movimento sindical tem a obrigação e o dever para com a classe trabalhadora em ultrapassar desconfianças e procurar estabelecer alianças sociais com organizações de defesa de interesses específicos (jovens, mulheres, imigrantes, reformados e pensionistas); alianças sindicais, desde os locais de trabalho, sectores de actividade até às Confederações Sindicais; alianças políticas entre o movimento sindical e os Partidos das Esquerdas em defesa de objectivos comuns, como sejam a defesa do Estado Social (saúde, educação, segurança social, habitação) e os valores essenciais da CRP.

Este conjunto de alianças, se já fazia sentido no passado, agora, com a direita e extrema-direita a ter no Parlamento uma maioria de dois terços, tornam-se ainda mais essenciais. Alianças que envolvam o movimento sindical, a sociedade civil e os Partidos das Esquerdas.

É esta linha de intervenção e acção que mobiliza os sindicalistas da Corrente Sindical Socialista da CGTP-IN, pois, entendemos que a procura de pontos comuns fortalece a nossa luta em prol da construção de uma Sociedade mais justa e solidária.

23 abril 2025

Doação de acervo documental de Américo Nunes à CGTP-IN

No dia 23 de Abril, formalizou-se a doação do acervo documental de Américo Nunes à CGTP-IN.

A cerimónia de assinatura do auto de doação, realizada no Espaço Memória da CGTP-IN, no Seixal, contou com as intervenções do doador, Fernando Gomes membro do Secretariado do Conselho Nacional da CGTP-IN e, responsável pelo Centro de Arquivo e Documentação e, do Secretário-geral da CGTP-IN, Tiago Oliveira.

O acervo é composto pela biblioteca do histórico dirigente sindical, parte da qual já se encontra pesquisável, pelo arquivo que constituiu ao longo da sua vida sindical e de militante, e por um conjunto heterogéneo de peças de natureza museológica, com destaque para a bandeira da Intersindical que empunhava nas manifestações em que participou a seguir ao 25 de Abril.

Pela sua dimensão e diversidade tipológica, o fundo documental que Américo Nunes doou à CGTP-IN entre 2010 e 2024 não é apenas uma importante fonte para o estudo da história da CGTP-IN e do movimento operário e sindical. É também um caso de estudo sobre como se forma um dirigente sindical, os seus métodos de estudo e de trabalho, os seus interesses culturais, políticos e ideológicos.

Américo Nunes foi membro da Comissão de Trabalhadores do Hotel Tivoli até 2004, co-fundador da Federação Nacional dos Sindicatos de Hotelaria e seu coordenador de 1977 a 1986. Integrou a Direcção do Sindicato de Hotelaria do Sul entre 1974 e 2012, foi membro suplente do Secretariado da Intersindical entre 1975 e 1977, membro do Conselho Nacional da CGTP-IN entre os mandatos 1983-1986 e 1999-2004, do Secretariado do Conselho Nacional da CGTP-IN entre os mandatos 1996-1999 e 1999-2004, membro suplente da Comissão Executiva do Conselho Nacional da CGTP-IN no mandato 1986-1989 e membro efectivo entre os mandatos 1989-1993 e 1999-2004. Entre 1986 e 2004, teve a seu cargo a coordenação do departamento de Organização Sindical e Política de Quadros.



Fotografias do Arquivo da CGTP-IN/Jorge Caria

13 março 2025

Eleições legislativas: desafios para o PS e para o mundo do trabalho (Acção Socialista n.º 1678 de 13.03.2025)

O Governo da AD (PSD/CDS) empurrou o país para umas eleições que nem o país (especialmente os trabalhadores) nem os partidos políticos queriam, por imprudência e falta de seriedade do primeiro-ministro e a subserviência do Governo. Umas eleições que se realizarão num momento de grandes transformações a nível europeu e mundial decorrentes das políticas disruptivas e antiprogressistas de Donald Trump como presidente dos Estados Unidos da América.

À crise política para a qual o país foi arrastado, por Luís Montenegro, devido à sua recusa em dar explicações claras e inequívocas sobre a actividade da sua empresa, a Spinumvivajunta-se a incompetência e incapacidade do Governo para resolver os problemas do país, como são os casos mais dramáticos da saúde, educação e habitação. O chumbo da moção de confiança do Governo da AD leva-nos à realização de eleições legislativas antecipadas.

Só o Partido Socialista é alternativa à direita e extrema-direita

Neste contexto social e político, cabe ao Partido Socialista (PS) a construção de uma alternativa política com um forte pendor social que valorize os trabalhadores, que promova o aumento dos salários e das pensões, que dê resposta à degradação das condições de trabalho (segurança e saúde no trabalho), tanto no sector público como no privado, e que defina uma estratégia de estudo e combate às doenças profissionais e acidentes de trabalho.

Precisamos que o PS estabeleça uma estratégia de desenvolvimento social e económico que promova emprego de qualidade e tenha como principal preocupação a fixação dos jovens no nosso país e que, ao mesmo tempo, combata a precariedade dos vínculos laborais.

Em especial, é urgente a resolução dos problemas do Serviço Nacional de Saúde (SNS), desde a valorização dos salários e das carreiras de todos os seus profissionais à criação de incentivos que façam regressar quem nos últimos anos tem saído do SNS.

O PS deve reforçar a política que vinha a ser seguida pelos nossos governos, com um forte investimento na habitação, para que a oferta pública tenha um efeito regulador do mercado de arrendamento.

É reconhecido por todos os empresários a falta de mão-de-obra, que não se limita à altamente qualificada. Neste sentido, o problema da imigração tem de ser encarado com responsabilidade. Portugal tem de promover políticas públicas de acolhimento e integração dos imigrantes que nos procuram.

Tendo presentes os valores e princípios do Partido Socialista, da liberdade, da igualdade e da solidariedade, profundamente humanista, assim como o histórico de uma boa governação nesta área, deve ser aberto um processo de regularização extraordinária da situação dos imigrantes em Portugal, independentemente da sua origem e envolvendo todos os actores sociais (associações de imigrantes, sindicatos, associações empresariais, organizações e entidades de solidariedade, entre outros), que tenham entrado em Portugal até 31 de Dezembro de 2024 e que disponham de condições económicas mínimas para assegurarem a subsistência, designadamente pelo exercício de uma actividade profissional remunerada, demonstrada pelos respectivos recibos salariais ou, na sua falta, por atestados de organizações idóneas.

A Corrente Sindical Socialista da CGTP-IN (CSS da CGTP-IN) defende que um governo do PS deve ter uma relação privilegiada com as organizações sindicais, tanto da CGTP-IN como da UGT, ouvindo e respondendo aos anseios que emanam da classe trabalhadora.

Envolvendo os trabalhadores e o povo em geral, fomentando a confiança e gerando a esperança, o PS tem condições para vencer as próximas eleições.

Portugal necessita de tranquilidade, e os portugueses de bem-estar, justiça social e segurança para enfrentarem e vencerem os enormes riscos do presente e construírem o futuro que é necessário – e este somente o Partido Socialista tem condições para construir.

Os desafios para o mundo do trabalho

Os sindicalistas da Corrente Sindical Socialista da CGTP-IN têm defendido, no seio da Confederação, que se promovam convergências sindicais a todos os níveis, entre as organizações sindicais de empresas, sectores de actividade e das confederações sindicais, das quais resultem a melhoria dos salários e dos direitos para os trabalhadores e trabalhadoras.

Político-sindicalmente, entendemos que o movimento sindical, mantendo firmemente a sua autonomia, deve defender que os partidos das esquerdas devem trabalhar para a construção de alianças políticas alternativas à direita e extrema-direita, como forma de retomarmos o modelo de governação que existiu entre 2015 e 2019, com o objectivo de serem realizadas políticas que resolvam os problemas com que o país e os trabalhadores se defrontam.

Perante as incertezas que vivemos e os processos eleitorais que se avizinham, eleições legislativas, autárquicas e presidenciais, o movimento sindical, em geral, e de forma muito especial a CGTP-IN e os seus sindicatos, precisam de reforçar a sua influência nos locais de trabalho e na sociedade, em particular, relançando a CGTP-IN no espaço público.

Enquanto sindicalistas socialistas da CGTP-IN e também muitos independentes que trabalham com a Corrente Sindical Socialista, tudo faremos para reforçar e proteger a CGTP-IN e os seus sindicatos através do aprofundamento do seu funcionamento democrático e da construção da unidade na pluralidade, desde os locais de trabalho até à estrutura confederal, sempre tendo presente o objectivo primeiro de defender os justos interesses da classe trabalhadora.

É imperativo que a CGTP-IN faça uma discussão interna, em que participem activamente os sindicalistas de todas as correntes de opinião político-ideológicas (COPI), que leve à definição de um conjunto de reivindicações sindicais a discutir com os partidos das Esquerdas, no sentido de contribuir para a resolução dos problemas que afectam o país e os trabalhadores.

O combate eficaz à direita e extrema-direita faz-se com a resolução dos problemas do país e dos trabalhadores, e esse objectivo será mais facilmente conseguido se trabalharmos para a existência de convergências sindicais entre as organizações sindicais de empresas, sectores de actividade, mas também ao nível das confederações sindicais, CGTP-IN e UGT, sempre no respeito pela natureza e identidade de cada organização.

14 fevereiro 2025

CGTP-IN, QUE FUTURO? (Acção Socialista n.º 1660 de 13.02.2025)

Após o último Congresso, em Fevereiro de 2024, os sindicalistas socialistas e independentes organizados no âmbito da Corrente Sindical Socialista da CGTP-IN (CSS da CGTP-IN) ficaram, pela primeira vez desde o Congresso de Todos os Sindicatos (1977), ausentes da Comissão Executiva da CGTP-IN (CECO), com todas as consequências que tal facto acarreta para a unidade da maior e mais representativa Confederação do nosso país.

Efectivamente, porque, ao não incluir na sua composição sindicalistas de todas as correntes de opinião político-ideológicas das esquerdas que existem, coexistem e intervêm nos locais de trabalho, em particular, os sindicalistas socialistas, a actual composição da Comissão Executiva está amputada da realidade político-ideológica e sindical vivida pelos trabalhadores e trabalhadoras.

As divergências que temos no interior da nossa Confederação não são unicamente pela vontade de os sindicalistas socialistas reforçarem a sua participação na CECO, mas também pelas posições da maioritária Corrente de Opinião Político-Ideológica (COPI) do PCP, emanadas a partir da sua actual Comissão Executiva (monolítica), de que é exemplo a proposta de resolução apresentada ontem, 12 de Fevereiro, ao Conselho Nacional da CGTP-IN, para discussão e aprovação.

O que a actual Comissão Executiva da CGTP-IN, que não representa a pluralidade que existe no mundo do trabalho, nos propõe é uma visão redutora, pouco assente na questão sindical e mais na reprodução de posições político-partidárias que não tem adesão na maioria dos trabalhadores que representamos.

A nível nacional:

·         Constata-se que há um erro de análise sobre os motivos da abstenção do Partido Socialista na votação do Orçamento do Estado para 2025 (OE 2025) e não se valorizam as conquistas, nomeadamente, sobre o aumento permanente para os pensionistas;

·         São rejeitadas as nossas propostas de promovermos com urgência a reflexão sobre a importância e a necessidade de convergências, a todos os níveis, entre as organizações sindicais de empresas, sectores de actividade e das confederações sindicais, das quais resultem a melhoria dos salários e dos direitos para os trabalhadores e trabalhadoras;

·         Não é aceite a nossa proposta de que se dirija um apelo aos partidos das esquerdas para a construção de alianças políticas com vista a combater a ofensiva contra o Estado Social, em especial, as intenções do Governo do PSD/CDS quanto à Segurança Social e em relação ao SNS.

O que os sindicalistas socialistas da CGTP-IN constatam é que, perante as ameaças e os riscos, quer de âmbito nacional quer mundial, que existem, cada vez se torna mais necessário encontrar plataformas de acção comum entre todas as organizações de trabalhadores, desde os locais de trabalho até à Comissão Permanente de Concertação Social (CPCS), para alcançar objectivos concretos aceites por todas as organizações participantes.

Infelizmente, a COPI do PCP não acompanha esta visão assente em factos concretos de ataque aos direitos dos trabalhadores, seja na legislação do trabalho ou no ataque ao sistema público, universal e solidário da Segurança Social.

Apesar das divergências apontadas, saudamos a aceitação da nossa proposta para a realização de uma iniciativa a 8 de Maio, Dia Mundial da Segurança Social, em defesa de uma Segurança Social pública, universal e solidária, esperando nós que seja convergente com outras organizações e personalidades, tal como propúnhamos.

A nível internacional:

·         Outro erro de análise é sobre a actual liderança dos Estados Unidos da América, tendo a nossa proposta de apreciação da situação sido rejeitada. A alteração política nos EUA traz profundas mudanças para o povo americano, mas também para o mundo, e coloca a todos os democratas e progressistas novos desafios. A composição da Administração Trump e as decisões que já tomou expressam um verdadeiro conflito entre o interesse público e o interesse privado, porém, estando aquele totalmente subjugado a este. Os membros do governo são, na sua generalidade, economicamente bilionários; politicamente, de extrema-direita e negativistas; eticamente, sem valores e princípios; humanamente, totalmente subordinados a TRUMP. Todas as acções políticas que já tomou nas três semanas de mandato expressam a política que vai ser efectivada. A última, referente à imposição de tarifas aduaneiras a vários países, irá trazer dificuldades de crescimento económico a nível mundial, desemprego e subida da inflação, o que criará entraves ao desenvolvimento dos países.

·         Realçamos como positiva a existência de um amplo consenso sobre o que se passa na Palestina, com o acordo sobre o cessar-fogo, a libertação pelo HAMAS dos reféns e a libertação dos prisioneiros palestinianos por Israel. Sabemos que é preciso construir o caminho para um acordo de paz permanente que, cumprindo as resoluções das Nações Unidas, estabeleça a existência de dois Estados.

·         Já sobre a Ucrânia, a nossa proposta foi rejeitada: Na Ucrânia, após quase dois anos de conflito, continuamos a assistir ao ataque a alvos civis, infra-estruturas essenciais para a vida da população, tornando-se cada vez mais premente acabar com esta invasão injusta e injustificada. É necessário que se aplique um cessar-fogo imediato que conduza à retirada das tropas russas dos territórios ocupados, iniciando desta forma negociações para uma paz duradoura na qual seja assegurada a segurança quer da Ucrânia quer da Rússia. A recusa desta proposta não tem qualquer base sindical. Só as motivações político-partidárias impedem a nossa Confederação de tomar esta posição.

O momento que vivemos na CGTP-IN e nos seus sindicatos é de enorme complexidade. O ataque que está a ser feito aos direitos dos trabalhadores, pelo Governo PSD/CDS, pela extrema-direita, exigem respostas firmes e em convergência entre todas as sensibilidades político-sindicais e político-partidárias no âmbito da esquerda plural.

Por outro lado, o surgimento de movimentos inorgânicos que dão origem a sindicatos cujo único objectivo é a divisão da classe trabalhadora obriga-nos a um grande esforço de unidade e a trabalhar de forma séria na construção de compromissos que fortaleçam a CGTP-IN e reforcem todo o movimento sindical associado.

Enquanto sindicalistas socialistas, como forma de reforçar o papel dos sindicatos na nossa sociedade e em defesa da democracia, exortamos mais uma vez os militantes e simpatizantes do Partido Socialista a aderirem aos sindicatos, a participarem na sua actividade, fazendo-se eleger como delegados e dirigentes sindicais.

O sindicalismo em geral, em que incluímos a UGT, mas de forma especial a CGTP-IN e os seus sindicatos, onde a Corrente Sindical Socialista da CGTP-IN desenvolve a sua actividade, está intimamente ligado à construção da democracia. O ataque aos sindicatos é um ataque à democracia. É por isso que precisamos de uma CGTP-IN forte, coesa, capaz de enfrentar os desafios que se nos colocam, em unidade.

Acção Socialista:

https://www.accaosocialista.pt/?edicao=1660#/1660/cgtp-in-que-futuro

30 novembro 2024

CGTP-IN: presente e futuro do sindicalismo em Portugal e a acção do Partido Socialista no mundo do trabalho (Revista Portugal Socialista n.º 238 de Novembro de 2024)

A CGTP-IN, enquanto maior organização social do nosso país, força imprescindível para influenciar as políticas públicas em Portugal, organização sindical de classe, assente na unidade, democracia, independência, solidariedade e num sindicalismo de massas, coloca em causa toda a sua força quando renega as suas raízes e os seus princípios.

O presente artigo enquadra-se num dos temas desta edição do Portugal Socialista, Sindicalismo, Democracia e Progresso Social e visa dar a visão sobre o presente e o futuro do sindicalismo, no contexto de um sindicalista da CGTP-IN e uma abordagem sobre o papel do Partido Socialista no mundo do trabalho, tendo presente que o autor é, em primeiro lugar, sindicalista, mas, ao mesmo tempo, colhe as influências político-ideológicas que advêm da condição de militante do Partido Socialista.

1)     Abordagem enquanto dirigente sindical

A CGTP-IN, cuja data da fundação se situa no dia em que foi emitida a convocatória (01 Outubro de 1970) para a primeira reunião Intersindical, realizada a 11 de Outubro de 1970, completou, no passado dia 01 de Outubro, 54 anos de uma longa e intensa actividade. A Mesa[1] dessa primeira reunião foi constituída pelos dirigentes sindicais Daniel Cabrita, dos bancários, que presidiu, José Pinela, dos caixeiros, Carlos Alves[2], dos metalúrgicos, e Margarida Carvalho, dos lanifícios, em representação dos sindicatos promotores, entre outros.

Carlos Alves, Kalidás Barreto, Ruben Rolo e Carlos Trindade, entre muitos outros, cada um no seu tempo, são referências incontornáveis dos sindicalistas socialistas da CGTP-IN e do sindicalismo em Portugal. Foram a corrente que nos trouxe até aos dias de hoje contributos importantíssimos para a CGTP-IN e o movimento sindical em Portugal.

A unidade e a democracia são princípios fundamentais na construção da CGTP-IN e do movimento sindical associado, a partir do II Congresso (1977), ou, como é mais conhecido, do Congresso de Todos os Sindicatos.

Na unidade, porque da organização passaram a fazer parte, ao longo dos anos, diversas correntes de opinião político-ideológicas, desde logo, sindicalistas comunistas, socialistas, católicos progressistas, da BASE – Frente Unitária de Trabalhadores (BASE FUT), entre outros, e, nos últimos anos, bloquistas.

Foi após o Congresso de 1977 que se criaram as bases da acção sindical e os métodos usados ao longo das últimas décadas, a distribuição de tarefas em função dos equilíbrios existentes na CGTP-IN, sempre no respeito pelas responsabilidades individuais, mas assumindo o trabalho colectivo como essencial para tornar a CGTP-IN forte nos locais de trabalho, coesa, com capacidade de intervenção na sociedade e com influência nas políticas públicas desenvolvidas pelos sucessivos governos.

Na democracia, porque o funcionamento dos seus órgãos, apesar da existência de uma corrente sindical maioritária (a comunista), sempre foi respeitando e percebendo que o funcionamento dos órgãos, a discussão aberta e plural, o direito à opinião, mesmo que divergente, eram benéficos e reforçavam a organização, tanto nas empresas e nos locais de trabalho como na sociedade.

Renegar princípios fundamentais e as raízes sobre as quais a CGTP-IN foi sendo construída, como aconteceu, de forma mais ligeira a partir de 2012, mas de forma mais gravosa após o XIV Congresso, de Fevereiro de 2020, é não perceber que a Confederação só alcançou preponderância e influência porque nela coexistem e trabalham diversas correntes de opinião político-ideológicas. É daqui que resulta a força e influência da CGTP-IN.

Se a partir de 2012 se romperam métodos usados ao longo dos anos, tal como o funcionamento em grupos de trabalho, com todas as correntes, forma de alcançar consensos alargados sobre posições da CGTP-IN antes de passarem aos órgãos dirigentes, foi a partir de 2020 que sentimos uma maior perda de autonomia da CGTP-IN face ao Partido Comunista Português (PCP). Na linguagem, na imagem, nas posições e nas decisões.

Aquando do XIV Congresso, em 2020, na posição que assumimos de apresentar um candidato a secretário-geral alternativo a Isabel Camarinha, tornámos público, em comunicado[3], o que prevíamos que viria a acontecer: «[...] a conhecida e assumida militância de Isabel Camarinha na Corrente Sindical do PCP levanta sérias preocupações de que, com a sua eleição, passe a existir ainda uma maior aproximação da CGTP-IN ao PCP.»

Tal como previmos, esta hipótese concretizou-se. A autonomia dos dirigentes sindicais da Corrente Sindical do PCP no espaço da Confederação diminuiu face ao seu partido. As correntes sindicais dos católicos e independentes perdem cada vez mais a sua autonomia. De 2012 até aos dias de hoje, católicos e independentes perderam algumas responsabilidades que foram assumidas pelos dirigentes da maioria.

Por outro lado, o funcionamento democrático dos órgãos foi colocado em causa. Pôs-se de lado a forma de decisão por consenso e passou a haver uma prática sectária de apresentar propostas consumadas sem prévia discussão, com pedidos de contributos, é verdade, mas sem que muitos deles sejam considerados, como sempre aconteceu no passado.

Enquanto sindicalistas socialistas, sempre nos distanciámos destas práticas, com posições assumidas publicamente. São exemplo: a posição sobre os critérios para a fixação de um salário mínimo nos estados-membros da União Europeia (Março de 2020), que rompia com a visão internacionalista da CGTP-IN, pois não era solidária com milhões de trabalhadores de países onde não existe um salário mínimo; a declaração de compromisso do conjunto dos parceiros sociais, no âmbito da Comissão Permanente de Concertação Social (CPCS), sobre a COVID-19, que a CGTP-IN não subscreveu (12 Maio de 2020); e a não subscrição das posições reivindicativas assumidas pela Confederação Europeia dos Sindicatos (CES) quanto ao Plano de Recuperação e Resiliência, ficando a CGTP-IN isolada a nível europeu (18 de Junho e 14 de Julho 2020).

Ao nível interno, assistimos à ingerência na autonomia do funcionamento dos departamentos, desde a concepção dos planos de actividades até à forma de concretizar iniciativas.

Como se pode constatar, sempre com a oposição visível dos sindicalistas socialistas da CGTP-IN, o funcionamento democrático dos órgãos dirigentes foi-se degradando. A democracia foi sendo posta em causa, fruto de uma menor autonomia dos dirigentes da Corrente Sindical do PCP face ao seu partido.

No Conselho Nacional (CN) de 09 de Julho de 2020, na Casa do Alentejo, deu-se a machadada final na democracia interna. Fruto de divergências profundas em relação à resolução proposta pela maioria da Comissão Executiva (CECO) na apreciação política da época que vivíamos (pandemia), os membros do Conselho Nacional que integram a CSS da CGTP-IN decidiram apresentar uma resolução alternativa ao CN. Essa resolução foi rejeitada pela maioria da Mesa (CECO), não foi distribuída e não foi submetida a votação. Colocou-se em causa direitos inalienáveis de qualquer membro do Conselho Nacional. Ser informado, fazer propostas ao órgão de direcção da nossa Confederação, vê-las distribuídas, discutidas e votadas.

Nas reuniões do Conselho Nacional de 09 de Julho, 10 de Setembro e 19 de Novembro de 2020, os sindicalistas socialistas da CGTP-IN sempre apresentaram propostas alternativas de resolução, nunca aceites, fosse por rejeição da maioria da Mesa ou por submissão ao CN da sua admissão (o caso de 10 de Setembro de 2020). Sempre que tal aconteceu, os sindicalistas socialistas passaram a ausentar-se da reunião por altura das votações, não dando, assim, cobertura a métodos de trabalho antidemocráticos.

Ao colocar-se reiteradamente os princípios de unidade e democracia da CGTP-IN em causa, viola-se o direito de tendência[4], que, apesar da insuficiente regulamentação, estipula que, pela natureza unitária da CGTP-IN, se reconhece a existência no seu seio de diversas correntes de opinião político-ideológicas (COPI), cuja organização é, no entanto, exterior ao movimento sindical e da exclusiva responsabilidade dessas mesmas correntes de opinião.

Além da violação do direito de tendência, estas práticas impedem a livre expressão dos membros do Conselho Nacional e o seu direito a apresentarem propostas alternativas aos documentos que são apresentados para discussão.

Tendo presente o sucedido nas reuniões de Julho, Setembro e Novembro de 2020, os sindicalistas socialistas do Conselho Nacional da CGTP-IN decidiram deixar de participar nas suas reuniões até que o funcionamento democrático dos órgãos fosse reposto, porque não podiam continuar a pactuar com a ausência de democracia interna.

A ausência das reuniões decorreu entre 14 de Janeiro de 2021 e 26 de Outubro de 2022. No entanto, sempre justificámos politicamente as ausências em documentos enviados aos membros do CN e continuámos a submeter as nossas propostas alternativas de resolução.

O funcionamento democrático dos órgãos dirigentes da nossa Confederação, entre outras questões de princípio, é essencial para que, pelo menos os sindicalistas socialistas e independentes que trabalham com a Corrente Sindical Socialista da CGTP-IN, continuem a fazer parte do projecto que desde 1970 construímos em conjunto e é por isso que tudo fizemos, fazemos e faremos para preservar a CGTP-IN, para bem da classe trabalhadora.

Retomámos a nossa participação na reunião do Conselho Nacional de 17 de Janeiro de 2023, tendo sido na altura informados todos os seus membros, pela secretária-geral da CGTP-IN, Isabel Camarinha, que, no quadro da CECO, se havia alcançado um entendimento sobre o funcionamento do CN. Entendimento feito com os dirigentes sindicais da CSS da CGTP-IN.

De referir que, durante este tempo de ausência das reuniões do Conselho Nacional, a nossa acção e intervenção se desenvolveu no âmbito da Comissão Executiva da CGTP-IN.

Quando se pensava que, pela experiência vivida durante os últimos anos, poderíamos resolver problemas internos na base do diálogo, eis que, no âmbito da preparação do XV Congresso, outro problema surgia.

Em muitos dos congressos, muitos sindicalistas socialistas e independentes apresentam para discussão, através dos respectivos sindicatos, propostas de alteração ou alternativas aos documentos centrais. É o caso das moções e resoluções, para a melhoria das quais contribuímos de forma inequívoca. Já quanto ao programa de acção, documento orientador da acção e intervenção da CGTP-IN nos quatro anos seguintes, não se conseguiu introduzir propostas que considerávamos importantes, o que nos levou a apresentar para discussão e votação propostas alternativas.

A CSS da CGTP-IN trabalhou também para o reforço da Confederação através dos dirigentes que propusemos para o órgão de direcção, sindicalistas socialistas e independentes, de sindicatos operários, de serviços e turismo, da indústria, do têxtil, do calçado e de vários sectores da Administração Pública local e nacional. Dirigentes capazes, activos e representativos de milhares de trabalhadores.

Com base neste trabalho, sinalizámos desde Outubro de 2023 que estávamos em condições de reforçar a nossa influência, aumentar as nossas responsabilidades, sem bulir nos equilíbrios entre a maioria e as minorias. Nunca foi essa a nossa intenção. Mas era objectivo reequilibrar e aumentar a nossa influência dentro dos equilíbrios estabelecidos entre minorias desde 1977.

Dentro do objectivo de alterar a correlação de forças no âmbito das minorias, por uma questão de princípio, defendemos neste processo que a Corrente Sindical do Bloco de Esquerda (CS do BE) deveria, pela primeira vez, integrar a Comissão Executiva da CGTP-IN.

Porquê? Porque a Corrente Sindical do PCP tem, ao longo dos últimos mandatos, alargado a sua influência através das chamadas minorias dos católicos e independentes, o que rompe com os compromissos assumidos a partir do Congresso de Todos os Sindicatos (1977), que estipulava que um terço dos órgãos dirigentes não era da maioria do PCP.

Como até à realização do XV Congresso, a 23 e 24 de Fevereiro de 2024, a Corrente Sindical do PCP na CGTP-IN bloqueou o reequilíbrio entre as minorias para que os dirigentes sindicais socialistas pudessem aumentar o seu número, decidimos não integrar a Comissão Executiva eleita pelo Conselho Nacional da CGTP-IN a 23 de Fevereiro.

Este aumento é mais do que justo. Temos dirigentes capazes e reconhecidos pelos trabalhadores, dirigimos sindicatos com uma ampla representação sindical e com milhares de associados, sindicatos reivindicativos, de luta, que defendem os interesses da classe trabalhadora e resolvem os problemas concretos dos seus associados.

Podemos afirmar que assistimos, nos dias que correm, a um enfraquecimento da CGTP-IN em função da existência de uma Comissão Executiva que não representa a pluralidade que existe no mundo do trabalho. Não incluindo na sua composição sindicalistas de todas as correntes de opinião político-ideológicas das esquerdas que existem, coexistem e intervêm nos locais de trabalho, em particular, os sindicalistas socialistas, a Comissão Executiva está, com a sua actual composição, amputada da realidade político-ideológica e sindical vivida pelos trabalhadores e pelas trabalhadoras.

Tendo presente a natureza de classe da CGTP-IN e os seus princípios de unidade, democracia, independência, solidariedade e de um sindicalismo de massas, acreditamos que se podem construir compromissos sólidos para o futuro que reforcem não só a presença dos sindicalistas socialistas no projecto mas, acima de tudo, que reforcem a pluralidade e dêem um novo impulso à CGTP-IN.

2)     Abordagem enquanto socialista

Acreditamos que a maioria dos trabalhadores e trabalhadoras que militam nos sindicatos filiados na CGTP-IN votam no Partido Socialista nas diversas eleições e, como tal, não correspondem à mesma maioria sociológica dos dirigentes dos sindicatos e da Confederação.

Se, por um lado, a maioria dos dirigentes sindicais dos sindicatos e da própria CGTP-IN desenvolve a sua militância partidária no PCP, fruto da forma de organização dos seus quadros e da forte ligação aos locais de trabalho, a maioria dos associados e das associadas dos sindicatos não milita no PCP.

Há, pois, duas maiorias sociológicas diferentes, a dos dirigentes (PCP) e a dos trabalhadores que votam maioritariamente nos partidos das Esquerdas.

Esta convicção assenta também em dados sobre o voto dos trabalhadores sindicalizados que mostram um padrão, ainda que os últimos que conhecemos datem de 2002, 2005, 2009 e 2011. Segundo dados apresentados pelo professor André Freire[5] sobre o voto dos sindicalizados nas eleições legislativas daqueles anos, o PS só ficou atrás do Partido Social Democrata (PSD) em 2011.

No âmbito da organização do Partido Socialista, realçamos a importância da Tendência Sindical Socialista (TSS)[6], reconhecida estatutariamente, que enquadra tanto os sindicalistas socialistas da CGTP-IN (CSS da CGTP-IN) como os da UGT (TSS da UGT). Mas a existência da TSS não deve substituir a reflexão do PS sobre o mundo do trabalho, sobre os problemas que existem tanto no campo da CSS da CGTP-IN como no da TSS da UGT. Deve, antes, aproveitar o conhecimento e o saber de quem está no dia-a-dia nos locais de trabalho e nas empresas.

Ao longo dos anos temos apontado algumas razões, junto de diversos dirigentes do Partido Socialista, para a fraca reflexão sobre o trabalho e o sindicalismo, a saber:

1)      O facto de o Partido Socialista, ao contrário de outros, não ter tido origem na classe trabalhadora;

2)      A falta de uma política para o mundo do trabalho que, entre outras questões, incentive os seus militantes e simpatizantes a aderirem aos sindicatos, a intervirem na sua vida interna e a fazerem-se eleger como delegados e dirigentes sindicais;

3)      O facto de se conotar a CGTP-IN como a Central do PCP, o que não corresponde à verdade, no que diz respeito aos sindicalizados dos seus sindicatos que, em Fevereiro de 2024, se situavam nos 562 500 trabalhadores e trabalhadoras, e nos muitos delegados e dirigentes sindicais que militam e votam noutros partidos, conforme acima se refere;

4)      O facto de os simpatizantes e militantes do PS, quando pensam numa possível filiação sindical, pensarem em primeiro lugar na UGT;

5)      A falta de formação dos dirigentes partidários sobre o trabalho e o sindicalismo e, em consequência disso, não se perceber a importância da negociação e da contratação colectivas, como forma de elevar salários e direitos. A transformação da sociedade através da melhoria das condições de vida e trabalho, objectivo que qualquer socialista deve preconizar, também se faz pela contratação colectiva, e não só no governo, institutos públicos ou autarquias.

Precisamos que o Partido Socialista defina uma política para o mundo do trabalho, que estabeleça uma maior ligação às empresas e locais de trabalho, aos problemas dos trabalhadores, que incentive os seus militantes e simpatizantes a aderirem e participarem na vida dos sindicatos. Que estreite as relações com as confederações sindicais e respectivos sindicatos, sempre no respeito pela autonomia, pois é essa a característica fundamental que distingue um sindicalista socialista de um sindicalista comunista.

3)     Desafios para a CGTP-IN e sindicalismo

Num artigo que publicou no Le Monde a 13 de Outubro de 2023, Marylise Léon, secretária-geral da então mais representativa[7] central sindical francesa, a CFDT, referia-se assim às mudanças que se vêm manifestando no mundo do trabalho desde o início deste século:

«O mundo do trabalho muda e os responsáveis políticos há muito que olham para o lado. Desindustrialização, desenvolvimento do sector dos serviços, robotização, desenvolvimento dos meios de comunicação, emergência dos trabalhadores de plataformas digitais, teletrabalho... Todas estas mudanças a que assistimos desde o início dos anos 2000 foram muitas vezes ignoradas em função de uma única preocupação: o emprego. Resultado: as organizações e as condições de trabalho; o reconhecimento das carreiras profissionais; a valorização das competências; as necessidades de formação para responder à evolução das profissões... Todas estas questões foram relegadas para segundo plano.»[8] 

E deixa uma recomendação: mais do que grandes discussões teóricas e mediáticas, aquilo de que os trabalhadores sentem necessidade é de que os ouçamos, de que os ouçamos falar das suas profissões.

A segunda secretária-geral na história da CFDT, eleita em Junho do ano passado, identifica alguns dos desafios do sindicalismo que são comuns à realidade portuguesa e aponta alguns caminhos que nos devem fazer reflectir.

Sabemos que o desenvolvimento dos sectores terciário e da informação, em paralelo com a estagnação e o declínio do sector secundário, provocou a redução do emprego na área da indústria.

A revolução tecnológica e as novas tecnologias, entre as quais, a disruptiva inteligência artificial, suscitam divisões entre novas e velhas profissões; a pressão dos mercados e da economia financeira intensifica-se; proliferam as formas de trabalho que antes se consideravam atípicas: a subcontratação, o trabalho clandestino, os contratos precários; há maior facilidade de despedimento e subsiste a chaga da precariedade e dos baixos salários nos sectores qualificados e não-qualificados.

Neste contexto, assiste-se à diminuição do número de trabalhadores sindicalizados e, paradoxalmente, ou talvez não..., à criação de novos sindicatos.

O movimento sindical que represento, o sindicalismo em que me revejo, não pode reagir a esta realidade laboral e social fechando-se sobre si mesmo, aninhando-se em métodos de acção que vingaram nas décadas de 1970 e 1980 e escudando-se na sua visão do mundo supostamente vanguardista.

Há quatro frentes de trabalho que, na presente conjuntura, considero fundamental aprofundar por parte do movimento sindical: a dos trabalhadores jovens, a dos trabalhadores imigrantes, a comunicação e o combate à direita e extrema-direita.

Em Portugal, como no resto da Europa, os jovens enfrentam dificuldades acrescidas no acesso e permanência no mercado de trabalho, dificuldades que a crise pandémica e as consequências dos recentes e menos recentes conflitos bélicos vieram agudizar. Os contratos não permanentes, o desemprego e, para não ir mais além, o custo da habitação, que afecta a esmagadora maioria dos trabalhadores, não apenas os jovens, ainda que os jovens portugueses sejam, na União Europeia, dos que saem mais tarde de casa dos pais.

Com o que se conhece do Orçamento do Estado para 2025 à data em que escrevo, início de Outubro, não há medidas que respondam minimamente a estes desafios.

O movimento sindical tem de reforçar o seu apoio às causas dos trabalhadores jovens, ouvindo-os nos locais de trabalho, unindo-os na luta pelas suas reivindicações, trazendo-os para as direcções sindicais, rejuvenescendo-as. Não bastam as regulares manifestações locais e nacionais, não bastam as greves. São necessárias, é certo, mas a actividade sindical não deve esgotar-se nestas formas de luta. É preciso partir da base, desenvolver um trabalho mais meticuloso, nos locais de trabalho, criando confiança nos trabalhadores, reabilitando a acção sindical junto dos mais jovens e dos trabalhadores em geral. Sim, é um trabalho mais moroso, menos mediático, mas certamente trará mais resultados. É urgente ouvir, unir, mobilizar, reivindicar, enquadrar, formar.

Não podemos ignorar, por exemplo, a luta que tem sido protagonizada pelos jovens no contexto das alterações climáticas. É uma luta que devemos apoiar, que deve ser de todos nós, porque a todos afecta, nas mais diversas dimensões, porque agudiza problemas globais como a pobreza e as desigualdades.

Também aqui os sindicatos devem reforçar o seu papel: contribuindo para sensibilizar os trabalhadores e a sociedade para esta problemática, trabalhando, em articulação com outras organizações, para acelerar a transição para uma economia verde e a implementação de medidas de mitigação dos efeitos das alterações climáticas.

E comunicando melhor. Comunicar não é apenas publicar um comunicado, um manifesto ou uma resolução num site institucional ou nas respectivas e tradicionais redes sociais, ou enviar uma nota à comunicação social. É muito mais que isso. É urgente que se chegue aos jovens com uma abordagem inclusiva, com uma linguagem que é a sua, ouvindo e discutindo os problemas que são os seus, evitando ceder à tentação de lhes impor uma determinada agenda político-ideológica, em função do debate político do momento.

Outra frente de acção que considero essencial reforçar é a dos trabalhadores imigrantes.

As guerras e a pobreza continuam a alimentar as migrações. O cemitério mediterrânico devia envergonhar-nos, europeus que nos consideramos, comunidade assente em valores que muito prezamos mas que hipocritamente se esfrangalham na política extractivista levada a cabo, nomeadamente, nos países africanos.

Somos um país de emigrantes e exigimos o respeito pelos direitos dos milhares de portugueses e portuguesas espalhados pelo mundo. Sabemos bem, ou deveríamos saber..., das dificuldades que enfrentaram os nossos compatriotas que saíram, e continuam a sair, do país em busca de melhores condições de trabalho e de vida. Devemos, também por isso, exigir que sejam respeitados os direitos dos que, de igual forma, nos procuram em busca de uma vida melhor, trazendo consigo uma bagagem multicultural que deve ser acolhida, estudada, compreendida e integrada na nossa sociedade.

São inaceitáveis e vergonhosas as situações de exploração laboral e aproveitamento de seres humanos que, por se encontrarem numa situação de vulnerabilidade, são alvos fáceis de gente sem escrúpulos cujo único objectivo é o lucro. Os últimos casos a que temos assistido, de migrantes escravizados na agricultura, na apanha da ameijoa no Tejo e em outros sectores de actividade, põem em causa e ultrapassam os limites da dignidade humana.

A CGTP-IN e os sindicatos associados têm tido um papel crucial, em articulação com outras entidades, na integração de imigrantes em Portugal, seja no esclarecimento dos seus direitos (legalização, formação, reunião familiar, laborais), seja na promoção de iniciativas que estimulem a sua integração social, combatam a discriminação racial e étnica, e facilitem a comunicação com os diversos serviços públicos.

Uma vez mais, a comunicação, a necessidade de comunicar melhor, dimensão que se impõe nas tarefas da CGTP-IN e do movimento sindical associado. É fundamental desconstruir o discurso dos que atribuem aos trabalhadores imigrantes as causas de todos os males, reais e imaginários, que assolam o nosso país.

O vírus da extrema-direita alastra-se, uma vez mais, pela Europa e pelo mundo. E os sintomas agravam-se: a precariedade, a desregulação e a exploração laborais, a repressão, o racismo, a xenofobia, a homofobia, as discriminações de todo o tipo, os discursos de ódio. Alimenta-se a ideia de que a solidariedade é um sinónimo de “parasitismo social” ou “subsidiodependência”, preferindo falar-se em “assistência aos carenciados”. Fomenta-se a divisão social, alegando-se que há, por parte dos que são oprimidos e explorados, uma cultura de vitimização que sobrecarrega a restante sociedade. E propõe-se proibir aquilo a que se apelida de “ideologias de género”.

Urge desmontar este discurso e reafirmar o combate a todo o tipo de discriminações, nos locais de trabalho e na sociedade, contribuindo para uma sociedade mais justa, em que todas e todos se sintam acolhidos e integrados.

Conclusão:

Os desafios com que os trabalhadores e trabalhadoras estão confrontados são enormes, nas várias dimensões da vida laboral e colectiva. Se aqueles e aquelas que foram eleitos, nos locais de trabalho, para os representar junto das entidades patronais e nas estruturas sindicais não forem capazes de convergir, seja ao nível das Confederações Sindicais (CGTP-IN e UGT), seja nos sindicatos e na sociedade civil, nos propósitos que lhes são comuns, estarão apenas a trair a confiança dos que depositaram neles a esperança de uma vida mais digna e justa, em que o seu trabalho é valorizado e respeitado.

A história demonstra-nos que a unidade na acção é uma condição sem a qual a causa dos trabalhadores está irremediavelmente enfraquecida. Mas como é possível sindicalizar mais, mobilizar mais, ter mais força negocial quando se olha para o interior da CGTP-IN, a central histórica e mais representativa dos trabalhadores portugueses, e não só não se reconhece um funcionamento democrático dos seus órgãos como se testemunha a rejeição de propostas alternativas às da corrente sindical maioritária? Como é possível insistir neste caminho de divisão quando a história nos mostra e o contexto nos exige a unidade? Unidade não é pensamento único. Unidade é construção, é criar consensos a partir das diferentes ideias e correntes de opinião, respeitando as diferenças político-ideológicas dos trabalhadores e de quem legitimamente os representa.

Não creio que existam muitas alternativas. Só assim será possível alargar a base social de apoio da CGTP-IN e construir convergências sindicais quando entendidas como favoráveis aos interesses dos trabalhadores e à concretização das suas reivindicações.



[1] Daniel Cabrita e José Ernesto Cartaxo, no volume I de Contributos para a História do Movimento Operário e Sindical: das Raízes até 1977: edição da CGTP-IN.

[2] Carlos Alves não só esteve presente na Mesa pelo seu sindicato, como foi um dos dirigentes que assinou a convocatória. Veio a ser, muitos anos depois, militante do Partido Socialista.

[4] Art.º 14.º dos Estatutos da CGTP-IN.

[5] Os dois partidos mais votados pelos trabalhadores sindicalizados: 2002, PS – 41%, PSD – 31%; 2005, PS – 55%, PCP – 17%; 2009, PS – 43%, PSD – 24%; 2011, PSD – 38%, PS – 30%.

[6] Art.º 76.º dos Estatutos do Partido Socialista.

[7] Cfr. Bertrand Bissuel: Thibaut Métais – A la CFDT, Laurent Berger Passe la Main à Marylise Léon, Nouvelle Secrétaire Générale [Em linha]. Le Monde. (21 Jun. 2023.) [Consult. 19 Out. 2023.] Disponível em: https://www.lemonde.fr/politique/article/2023/06/21/a-la-cfdt-laurent-berger-passe-le-flambeau-a-marylise-leon_6178546_823448.html.

[8] Cfr. Marylise Léon – Marylise Léon: «Les Travailleuses et Travailleurs Sont en Quête de Sens» [Em linha]. Le Monde. (13 Out. 2023.) [Consult. 19 Out. 2023.] Disponível em: https://www.lemonde.fr/idees/article/2023/10/13/marylise-leon-les-travailleuses-et-travailleurs-sont-en-quete-de-sens_6194172_3232.html.